Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem"
Chocolate, engorda. Fritura, dá colesterol alto. Bebida, cirrose. Cigarro, câncer. Café, gastrite. Digitar, tendinite. Sexo, traz má fama. Cocaína, vicia. Beijar, dá sapinho. Ver TV, sinal alienação. Ouvir música alta, deixa surdo. Comprar roupa, coisa de perua. Viajar, de gastador...
E assim é nossa vida. Passamos os dias controlando as calorias que ingerimos. Nos esforçando para não beber, beijar ou gastar demais. Precisamos estudar toda matéria, trabalhar na melhor empresa, pagar as contas em dia. Temos que ser organizados, pontuais, serenos. Não podemos brigar por uma injustiça, chorar por um amor perdido, exagerar na festa de fim de ano. E, acima de tudo, precisamos manter uma reputação invejável, afinal, ela vale mais que nosso caráter.
E vivemos de aparências, fingindo a perfeição. Mostrando que não temos defeitos, que nossa família é a melhor de todas, que somos pessoas equilibradas, sem vícios. E, em meio a tantas cobranças, mal percebemos que não precisamos mais de uma dose de bebida, de uma noitada de sexo ou de uma roupa nova. Afinal, já não queremos mais viver. Queremos, apenas, existir.

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