quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Sentir...


"Se sentir é uma estranha forma de pensar, um exagero da sensibilidade, sintais muito. Mas não a exiga dos outros. Cada um tem sua própria sentissência. Há coisas que não carecem ser vistas, bastam senti-las. Mas cada um faz a seu modo."
João Manuel Martins

Realmente, sentir é um exagero da sensibilidade. São poucos os que realmente sentem, os que se deixam guiar pelos sentimentos. E, na verdade, se todo exagero é maléfico, existe vantagem em ter a sensibilidade aguçada? Na minha profissão, sim. Sem sensibilidade a medicina vira mais uma mercadoria do sistema. Trabalhar deixa de ser cuidar de vidas, cuidar do próximo, e se torna um trabalho unicamente por dinheiro. Ser médico deixa de ter a função social e se torna mais um produto do mercado. Na verdade pensar assim é a ordem do sistema, mas só cai nessa quem não sente. Mas, até que ponto podemos cobrar dos outros o fato de não terem a mesma sentissência? Eu, livre como sou, respeito cada um a seu modo. E não cobro, nem julgo. Ou pelo menos tento não julgar. Mas, não é tarefa fácil perceber que são cerca de 10 anos de estudo para tornarem-se médicos absolutamente desinteressados com os problemas que a saúde pública e o povo enfrentam em nosso país. Os médicos preocupam-se única e exclusivamente em, após a formatura, conseguir abrir o próprio consultório, filiar-se a algum convênio, e tentar atender cada paciente o mais breve possível, aumentando assim os lucros no final do mês. E ainda tem quem pense que aqueles provenientes de escolas médicas públicas tem uma dívida com a sociedade, e que deveriam prestar um ano de serviço civil obrigatório. Eu discordo. Aqueles que vem de escolas particulares também precisam auxiliar no desenvolvimento social do país, o médico tem uma responsabilidade inerente e isso independe de sua escola de formação.
Sem mais delongas, percebo como realmente é difícil aceitar as diferenças de pensamento e da forma como cada um sente seu mundo ao redor. Sim, eu estou sensível ao extremo, e os motivos são incontáveis. Espero um dia pegar um pouco da insenssibilidade que permeia as pessoas que me cercam... e espero conseguir transmitir um pouco de minha sensibilidade excessiva, tentando quem sabe tornar o mundo mais justo e humano.

“Ou os estudantes se identificam com o destino do seu povo, com ele sofrendo a mesma luta, ou se dissociam do seu povo, e nesse caso, serão aliados daqueles que exploram o povo” (Florestan Fernandes)

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